Brasil Imperialista?
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Brasil Imperialista?


por Fagner dos Santos Carvalho
Todos os anos, no dia 15 de maio, os paraguaios comemoram sua independência da Espanha (1811) e a conformação do Paraguai em autônomo, independente e soberano.
Esse ano, porém, algo chamou a atenção. Como foi noticiado pelo jornal “O Estado de São Paulo” (sábado, 17/05/08, A25 e A28), no Departamento de San Pedro (seria, apenas para comparar, como um dos estados brasileiros), uma marcha de camponeses foi realizada onde, além da queima da bandeira brasileira, a questão de um certo imperialismo exercido pelo Brasil foi levantada.
Aparentemente essa marcha estava voltada contra a grande quantidade de terras que estariam nas mãos de brasileiros, principalmente próximas à fronteira com o Brasil, o que garantiu a essas pessoas o apelido de “brasiguaios”.
Apesar de a primeira vista esse fato estar ligado única e exclusivamente à questão da terra, o questionamento de um imperialismo que o Brasil exerceria na região está, certamente, ligado à eventos maiores, como a atitude do Presidente Evo Morales, quanto as empresas da Petrobrás em solo boliviano e, também, o tema da revisão do Tratado de Itaipu (que regula as relações entre o Brasil e Paraguai quanto à Usina Hidrelétrica de Itaipu), que foi tema de campanha e assunto reafirmado pelo presidente recém eleito do Paraguai, porém ainda não empossado, o ex-bispo, Fernando Lugo.
O imperialismo é, todavia, um conceito difundido principalmente no início do século XX e que faz referência a uma situação em específico da Europa, principalmente à países como a Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica.
Sob o aspecto político, o imperialismo se relaciona à fase em que, na urgência de obter o maior número possível de territórios, as potências européias, lançam-se, a partir do século XIX, na aventura de dominar e repartir o mundo como suas colônias, principalmente na África e Ásia.
Todavia, esse momento político não ocorreu sozinho, ele foi acompanhado pela nova fase do capitalismo, a etapa monopolista, ou seja, poucas empresas dominando certo mercado, além do incremento do mundo financeiro, onde o capital, seja empresarial ou financeiro, já não se bastava dentro das fronteiras de seus países e precisava se expandir pelo mundo em busca de maior lucratividade. Assim, o Estado andava de mãos dadas com os capitalistas. As empresas e o capital precisavam de mercados e o Estado, com sua atuação externa, lá estava para apoiá-los, como parte de um projeto político hegemônico.
Essa fase da expansão européia se distingue da anterior onde temos, por exemplo, a colonização do Brasil e da América espanhola, por que esse segundo momento “em vez da aspiração de um só império crescente, segue a teoria e a prática de impérios rivais, cada um deles guiando-se por idênticos apetites de expansão política e lucro comercial. E também porque nessa forma do imperialismo predominam os interesses financeiros, ou relativos ao investimento de capital, sobre os interesses comerciais” (CATANI, A.F. O que é imperialismo. Brasiliense: São Paulo, 1988, p. 42).
Hoje, principalmente nas relações entre o Brasil e os demais países americanos, em especial com nossos vizinhos da América do Sul, o que se nota é que, se de alguma forma o Brasil exerce certa preponderância (seja por fatores geopolíticos, como seu imenso território e população, ou mesmo pelo fato de que suas empresas estarem presentes e investirem nesses países), existe no discurso desses países a presença de um “fator externo” que é muito utilizado em política interna e exterior.
Sob essa perspectiva, costuma-se atribuir a um “agente” externo todas as nossas agruras internas, desviando o foco principal dos problemas, que muitas vezes está dentro do próprio país.
Não se está a afirmar que a presença o Brasil seja isenta no tocante a outros países (pelo menos não se pega em armas para se impor), contudo, em países com grandes desigualdades, como o caso boliviano e o paraguaio, em que seus governos têm dificuldades e resistências internas para efetivar suas políticas, o discurso de “um Brasil imperialista” aparece muito mais como fator para se buscar uma coesão interna mínima, do que efetivamente contrapor-se a ele.
Fagner dos Santos Carvalho é advogado
 e acadêmico de Relações Internacionais da UNESP/Marília. 
Email: [email protected]



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