Golbery do Couto e Silva - Centenário do Mentor da Abertura Política
Carreira Militar

Golbery do Couto e Silva - Centenário do Mentor da Abertura Política



Centenário de Golbery
Veja
Willy César*

O dia 21 de agosto de 1911 viu nascer um menino batizado com o nome de Golbery do Couto e Silva. Ele nasce na cidade do Rio Grande/RS, neto do comerciante Jacintho do Couto e Silva e filho de professor do Ginásio Municipal Lemos Jr., de igual nome.
Seu nascimento está registrado no jornal rio-grandino O Tempo, em dia imediatamente posterior. A casa da família situa-se na rua Paissandu (República do Líbano atual) com fundos para a rua Benjamin Constant, 123. Como a Passandú é tomada pela zona de meretrício por volta de 1917, Jacintho muda a entrada da casa para os fundos onde antes havia apenas o quintal.
O pai se encarrega da educação primária e matricula o menino no ginásio aos nove anos e meio. Desde logo, Golbery revela fascínio pela leitura e pelos estudos, assombrando professores e coleguinhas de aula com notas acima de nove e muitos dez, nas provas de matemática, português, ciências, idiomas etc. A única exceção é na disciplina de desenho com humilde nota sete, em dezembro de 1920.
Golbery disse ao jornalista Elio Gaspari: “fui matriculado no Lemos Jr. porque o reitor (Luiz de França Pinto) estava interessado numa experiência pedagógica e pediu isso a meu pai (...) Nunca soube direito a que tipo de experiência fui submetido, mas lembro-me do resultado com orgulho. Entre os treze e catorze anos li quase todos os clássicos da literatura portuguesa. Camilo Castelo Branco, por exemplo, devorei inteiro. Inventariei a biblioteca e os laboratórios de física e química, equipados com material alemão de muito boa qualidade”, recorda.


Pirâmide de alunos no pátio do ginásio Lemos Jr, em 1922. Golbery do Couto e Silva é o primeiro em pé, à esquerda. Foto: acervo do autor.
O gênio do jovem estudante tem repercussão na cidade com os jornais locais Echo do Sul,  O Tempo  e Rio Grande abordando passagens de sua vida escolar. Aos onze anos, Golbery discursa da capela-mor da igreja da Conceição em homenagem ao jurista e ex-ministro da República Ruy Barbosa, doente no Rio.
O homenageado telegrafa aos alunos do Lemos Jr.: “agradeço comovido missa estudantes ginásio municipal fizeram celebrar ação de graças meu restabelecimento. Saudações, Ruy Barbosa, Rio de Janeiro, 23/9/1922”.
Próximo da formatura, Golbery integra a caravana de estudantes do Lemos Jr., em pioneira atividade de preservação do meio ambiente, com reconhecimento e estudos da flora e fauna encontráveis na Vila da Quinta, orientada pelo professor Pedro Goulart dos Santos, das cadeiras de história natural e química. Golbery se forma no bacharelado de ciências e letras do Lemos Jr. em 2 de janeiro de 1926, com 9,3, a melhor média da história do colégio. Um ano depois ingressa na escola militar no Rio. Continua o relato de Gaspari: “Golbery chegou à Escola Militar de Realengo com cultura acima da média dos colegas. Sabia muita matemática e se encantara com o estudo da história. Ia à secretaria conferir as notas de Luiz Carlos Prestes, transformadas em pedra da meca do irredentismo tenentista.
Era o melhor aluno da escola com notas superiores a oito em todos os exames, na marca do cavaleiro da esperança e do tenente Ernesto Geisel. Saiu de Realengo em dezembro de 1930, na primeira turma de aspirantes do novo regime”. É promovido a segundo-tenente aos 19 anos e ganha o prêmio regimental por ter alcançado as mais altas notas de aprovação. Sua primeira missão é em Pelotas, no 9º Regimento de Infantaria. A partir desse posto passa a servir à secretaria-geral do Conselho de Segurança Nacional em Curitiba e Joinvile. Entre 1941 e 1943, já capitão, transfere-se para a Escola de Estado-Maior do Exército, e dali para a 3ª. Região Militar em Porto Alegre. Em 1944 vai aos EUA estudar na Escola de Guerra Fort Leavenworth e segue para os campos da Itália, junto à Força Expedicionária Brasileira como oficial de inteligência estratégica e de informações, até encerrar-se a Segunda Guerra. Promovido a major, é lotado no Estado-Maior da Forças Armadas, em 1946.
No período 1947-1950, integra a Comissão Militar Brasileira de Instrução no Paraguai. Como tenente-coronel, é investido adjunto do Departamento de Estudos da Escola Superior de Guerra. Nessa função, destaca-se como autor de estudo condicionando a associação do Estado à iniciativa privada mediante apoio tecnocrático para fortalecer a segurança nacional, doutrina absorvida pela ESG.
Textos estrondosos
Como exemplifica Gaspari, Golbery notabiliza-se por um estilo ao escrever documentos: “os textos que ele assinou pouco barulho fizeram, os que não assinou foram estrondosos”. O primeiro é o Memorial dos Coronéis, de 8 de fevereiro de 1954, que provocou a queda dos ministros João Goulart, do Trabalho, e Ciro do Espírito Santo, da Guerra, no governo democrático de Getúlio Vargas. O segundo é o discurso lido pelo coronel Juradyr de Bizarria Mamede à beira do túmulo do general Canrobert Pereira da Costa, morto em outubro de 1955.
Canrobert liderara a oposição militar a Vargas chamando-o de ‘pseudolegalidade’. Nesse discurso, Mamede chamou a eleição de Juscelino Kubitscheck de ‘indiscutível mentira democrática’. O terceiro documento é o Manifesto à Nação divulgado pelos três ministros militares em agosto de 1961, contra a entrega dos poderes presidenciais a João Goulart (que gerou o Movimento da Legalidade agora completando 50 anos). O quarto texto vale pela curiosidade. Em março de 1962, o primeiro-ministro Tancredo Neves deu aula inaugural aos cursos da ESG, no Rio, tratando do "panorama mundial e da segurança nacional.” O texto lido por Tancredo é de Golbery e o curioso nisso é que eles eram adversários de idéias, antes e depois do discurso.

Por ser autêntico e defender suas idéias abertamente, Golbery é preso por oito dias em novembro de 1955. Ele está a bordo do cruzador Tamandaré, da Marinha de Guerra, na curiosa tentativa de instalar o governo da República em São Paulo, pelo presidente-interino da República, deputado Carlos Luz, em oposição ao ministro da Guerra, Henrique Lott, cuja ação é garantir a posse de JK.
Esse general manda os fortes Copacabana e do Leme a dispararem seus canhões no Tamandaré, em deslocamento do Rio para São Paulo, com o presidente da República a bordo, mais o ministro da Marinha, militares e o deputado rebelado Carlos Lacerda. Diante do fracasso da tentativa, Carlos Luz volta à Câmara dos Deputados derrotado, Lacerda vai para o exílio e Golbery para a prisão junto a outros militares de alta patente. Contudo, isso não impede a sua promoção a coronel em 1956. Depois, Golbery apóia a eleição do presidente Jânio Quadros e sai nomeado chefe do gabinete do Conselho de Segurança Nacional, concentrando as ações de inteligência do governo federal, sua especialidade.
Reserva do Exército
Com a renúncia de Jânio, em agosto de 1961, Golbery pede reserva no Exército e, como tem direito a duas promoções, passa a general-de-divisão voltando à vida civil. No ano seguinte, cria e dirige o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) cujos arquivos são transferidos para o Serviço Nacional de Informações, o SNI, criado em 1964, tendo Golbery como seu primeiro ministro-chefe, no governo Castello Branco. Para as Forças Armadas, destaca-se como o principal teórico do movimento militar-político que depõe João Goulart. Ele e o general Geisel estão com o marechal Castello na noite de 31 de março de 1964, no apartamento de um amigo em Copacabana, disparando ordens por dois telefones. É o golpe de Estado que dá início ao regime militar instalado no Brasil e que vai durar 21 anos.


Em 1966, Golbery escreve Geopolítica e Poder, que reúne suas pesquisas e conferências da ESG, onde formula sua visão de poder e de progresso para o Brasil. Durante os governos Costa e Silva (1967-1969) e Médici (1969-1974), Golbery está fora do governo, ocupando funções no Tribunal de Contas da União até 1968, quando sai e atua na empresa privada como presidente da Dow Química. Com o general Geisel, volta ao Palácio do Planalto como ministro-chefe da Casa Civil.
Rio Grande
É ocupando essa função que ele visita sua cidade natal pela última vez, em 27 de agosto de 1976, após jejum de mais de 30 anos. Acompanhando Geisel, Golbery é visto na Prefeitura ao lado do presidente, do governador Sinval Guazzelli e do prefeito Rubens Emil Corrêa.


Golbery apóia iniciativas para o desenvolvimento de Rio Grande. A gratuidade do ensino na FURG, a instalação do 5º Distrito Naval na cidade, a construção de estradas e pontes para a implantação dos corredores de exportação junto ao porto do Rio Grande, o canal adutor do São Gonçalo, a pavimentação da avenida Buarque de Macedo, de boa parte da Cidade Nova e outros bairros são iniciativas que contam com sua colaboração em Brasília.
Golbery é mantido na Casa Civil pelo presidente João Figueiredo, em 1979, mas por divergir da condução de linha dura adotada no SNI, pede demissão em 1981. Dedica-se à trabalhar na iniciativa privada como a Dow Química. Acometido de câncer, morre em 18 de setembro de 1987, em São Paulo.
Arquivo de Golbery
Numa época em que o poder político esteve em poucas mãos, as de Golbery do Couto e Silva estão entre as que mais poder tiveram, como ensina Gaspari. Golbery tem o cuidado de se deixar julgar pela história ao entregar ao jornalista Elio Gaspari todo o seu acervo de documentos, secretos ou não, além de conceder-lhe entrevistas em 1980 e 1984. A mesma atitude tomara Ernesto Geisel que também deixa ao mesmo jornalista verdadeira montanha de papéis e entrevistas gravadas. Os dois generais de direita escolhem Gaspari, reconhecidamente um jornalista de esquerda.


Com esse arquivo, produz a série de quatro livros sobre a ditadura militar (A ditadura escancarada, encurralada, envergonhada e derrotada), onde se pode conhecer em profundidade o pensamento e as ações de Golbery. Ele justifica assim o que pensava sobre o que foi feito no Brasil com a sua colaboração: “fizemos o que era preciso, a tempo, bem feito e agora podem falar o que quiserem”.
Segundo seu secretário Heitor Aquino Ferreira, “o aluno brilhante e prometedor do colégio Lemos Jr., o capitão da Força Expedicionária Brasileira na Itália, o professor da Escola Superior de Guerra, o cidadão de família e de vida exemplar, o político de idéias, o ministro do silêncio e das informações de Estado, o orientador de empresas e de desenvolvimento e o conselheiro de inúmeros outros grandes homens do Brasil foram sempre o mesmo e distinto senhor, cativante dos que o conheceram e enigmático para os que dele apenas ouviram falar”.
A data do centenário de Golbery do Couto e Silva será assinalada pela Prefeitura de Rio Grande com a colocação da pedra fundamental de um monumento a ser erigido em sua homenagem, na praça Tamandaré, próximo a herma de Luiz de França Pinto. A cerimônia acontece neste domingo, 21, às 11 h.
Fonte:  Jornal AGORA (Rio Grande-RS)
transcrito do Blog do Montedo



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